21 novembro, 2017

Mayara



Eu cresci num lixão com minha mãe e meu irmão, passávamos o dia todo com fome, não existia comida descente que um dia sequer comecemos. Além de trabalhar muito tentando catar coisas para dar algum dinheiro a mais, não íamos a escola.
Era uma vida miserável, parecia que eramos esquecidos por Deus. Até que uma família requintada visitou nosso barraco, e segundo eles, gostariam de adotar crianças que moravam em estados deploráveis como a gente, mas eles não podiam adotar duas crianças, somente uma, e eu fui a escolhida. No começo eu chorei muito, não queria ficar longe das pessoas que eu amava, mas com o tempo fui me acostumando a ideia. Talvez essa seria a única chance que eu poderia ter na vida de poder crescer como ser humano e voltar para ajudar minha mãe e meu irmão.
Depois de toda papelada assinada por minha mãe e pelos meus pais adotivos, pude finalmente ir para o meu novo lar.
Era uma casa imensa, linda, eu tinha um quarto só meu e podia finalmente agora ir para escola e sem precisar trabalhar. Meus novos pais eram os melhores do mundo, sempre deixava eu visitar minha família.
Com 9 anos de idade ganhei uma festa só minha, com todos meus novos amigos comemorando comigo. Minha nova vida era um sonho, até que recebi um dia depois a notícia da morte de minha mãe verdadeira, fiquei devastada. Tentei visitar meu irmão, mas ele já tinha sido levado pelo conselho tutelar.
Eu fui seguindo meus dias e meses triste, não conseguia achar meu irmão, e eu precisava da família nova que me adotou para tudo, afinal, eu era só uma criança. 
Passou um tempo, já estava no ensino fundamental, tinha completado 11 anos de idade, e muitas pessoas achavam que eu tinha na verdade 13 anos, devido meu crescimento rápido.
Aos doze anos eu me formei como mulher, minha primeira menstruação desceu num dia em que estava todo mundo em casa, num domingo ensolarado, comendo churrasco.
Lembro que foi uma vergonha, pois estava na piscina, e de repente todo aquele sangue começou a subir e eu entrei em pânico.
Minha mãe adotiva, que por sinal se chama Selena, me levou para o quarto e conversou comigo sobre tudo o que ela tinha que conversar, confesso que foi um alivio.
Fui seguindo minha rotina normal, até que fui percebendo que meu pai adotivo, chamado Vitor, começou a mudar comigo, ele se afastava, não conseguia me encarar direito, não conseguia dividir o mesmo cômodo mais sozinho comigo.

Até que finalmente a bomba caiu sobre mim, em uma noite qualquer e quente, pude sentir alguém entrando em meu quarto, sentando sobre minha cama, e parado ali, começou a me observar. Eu sabia que se tratava de Vitor, porque sentia sua respiração funda perto de minha pele, e seu cheiro de cerveja logo o entregava.
Eu senti medo e fingi estar dormindo na esperança que ele fosse embora dali; mas ao observar meu sono, ele começou a passar suas mãos horrendas sobre meu corpo, e me apalpar toda. Eu não sabia o que fazer, se gritava ou continuava parada. Ficava pensando na Selena. No quanto ela era boa para mim, e do quanto seria uma grande decepção para ela saber daquilo. Talvez fosse a bebida, falei a mim mesma, enganando-me de que aquilo não se repetiria novamente. Mas o inferno estava apenas começando, dos toques passaram a ser beijos molhados e nojentos, dos beijos começaram as relações sexuais violentas, e de repente eu era o seu brinquedo a base de ameaças. Principalmente ameaças contra quem mais amava, Selena.
O incrível é que ela era tão boa e boba, nunca notou nada, mesmo quando minhas notas começaram a despencar tão de repente e eu ser diagnostica com síndrome do pânico junto a uma maldita depressão severa.

Eles me levaram a todos os tipos de médicos e me fizeram fazer todos os tipos de tratamento. Mas é lógico que eu não iria melhorar enquanto continuasse vivendo nesta casa.
Foi quando fiz 15 anos que decidi fugir de casa.
Voltei à estaca zero da minha vida, encontrei o barraco de minha mãe abandonado e comecei a dormir lá, de dia eu catava lixo como ela, e de noite eu passava chorando e tendo pesadelos com os abusos que sofria.

Fiquei vivendo assim por 3 anos da minha vida, precisava me mudar constantemente para que eles não me achassem.
Quando completei 18 anos, vi em um jornal que eles estavam aceitando faxineiras num prédio de jornalismo muito lindo. E consegui o trabalho. Enquanto limpava, ficava sonhando em ser uma jornalista como todas aquelas mulheres lindas e bem arrumadas que passavam sobre mim. Mesmo passando por tanto preconceito e indiferença, eu não me dava por vencida. Matriculei-me numa escola e recomecei a estudar, aos 25 anos de idade eu já havia terminado o ensino médio e finalmente poderia entrar para a faculdade de jornalismo.
Lembro-me da primeira vez que retornei para aquele prédio chique como estagiária.
Não foi fácil, eles ainda sabiam que eu era a antiga faxineira e me tratavam como tal, mas eu não me entregava, se eu havia chego até ali, eu teria de ir até o fim.
Se eu tive momentos em que queria desistir de tudo?
E como! Só Deus sabe o quanto, mas hoje eu estudo jornalismo e moro em uma pequena casa alugada, que é minha. Nunca mais vi o Vitor e muito menos Selena.
Mas um dia eu voltarei e colocarei todos os panos na mesa... Só estou esperando minha oportunidade chegar para que eu faça justiça.