Indignação




Como eu era boba – pensei.
Pensei que soubesse de todas as coisas, pois quando somos inocentes, sem passar por bases concretas do que realmente possam estar desmascarados, achamos que sabemos de tudo.
Quem nunca pensou que “nunca” poderia contar com alguém que desprezou, mesmo que esse alguém fossem seus pais? Quem nunca violou outro ditado “não cospe no prato que come”? Ou “tudo que vai um dia volta”? Quem?
Quem sempre achou que fazendo um favor a outro, ela deixaria de ser aquela que mendiga o pão para ser aquela que também ampara?
Quem nunca virou as costas para alguém, quando esse alguém tanto necessitava?
Somos todos errantes, sem sombra de dúvida. E quem disse que nunca fez tal coisa horrenda, pode afirmar que já errou em outros trajetos e que errou muitas vezes pior.
Quem nunca disse “nunca” e voltou correndo dias, meses ou anos para aquele que o pediu com carinho para não proferir esta palavra?
Quem nunca julgou um “livro” pela sua capa? Quem nunca proferiu palavras de maldição? Quem nunca deu falso testemunho de seu próximo? Quem nunca oprimiu alguém sem ao menos o conhecê-lo?
O mundo se tornou uma fumaça grande de hipocrisia. A hipocrisia é uma das piores falhas dos homens. Pois, em não ter coragem de admitir seus erros, se engrandecem nos erros dos outros como se nunca tivesse usado uma máscara. Mas este é mais podre do que aquele que foi humilhado. Por dentro não existem coisas boas que se possam aproveitar; só que possam destruir.
O homem nasce e não agradece, para nada e para ninguém, ele usa argumentos como “não pedi para nascer” para ser o dono da razão e circunstâncias que o põe como o acusador, bandido, mostro dos opostos, que um dia agradeceram e se arrependeram.
Assim como existem aqueles que se arrependeram e agradeceram, existem aqueles que pregam mentiras por todos os lados para que a verdade seja escondida e os homens continuem cegos. E estes cegos tendem a se transformar em futuro monstros pelo simples fato de não poder e não querer ver a realidade que o rodeia.
Independente de religião, classe social, gostos sociais diferentes, raça; somos todos iguais. E não há justificativa para quebrar esse elo da nossa semelhança, mas como o homem cruel vive na mentira, ele usa exatamente esses argumentos para diferenciá-los dos demais. Para que possam pisar e açoitar, sentindo-se heróis do inferno que eles próprios construíram.
E tudo isso acontece, lastimavelmente, por falta de conhecimento e sabedoria. Por não querer enxergar quando podiam ver.
O homem é um animal “racional” definitivamente. Ontem ao assistir o filme “O Abrigo”, percebi que todos no início do filme pareciam pessoas humanitárias. Mas não há máscaras que segurem aqueles que não suportam a bondade, a dignidade, o respeito e o amor acima de tudo.
E o pós-apocalíptico deles, foram seus próprios rancores, ódios, e incompetências de amar e estender as mãos. E, para mim, mesmo que venham discordar, não existe razão para se tornar um monstro. Não existe trauma físico ou psicológico, não existe solidão, não existe doença que dê direito ao homem de se tornar o que ele antes nunca era. Quando carregava contigo aquele olhar inocente de uma criança que só queria viver e brincar, que só queria sempre sentir a felicidade em seu coração. O próprio coração que os condenou os dando sensações das quais não quiseram dar as costas, e por não usarem a tal da razão,  hoje estamos a beira de um apocalipse de todas as coisas apavorantes e inimagináveis que possam existir.
E ninguém ainda se deu conta de que precisam crer que a bondade existe e de que ela é maior do que tudo que a envolve.