Prazer, sou cronista!





Hoje vou falar do livro "Impurezas Amorosas" de Miguel Sanches Neto, crônicas ilustradas.


Para começar o título do livro remete a ideia de algo que aceita a presença do outro, deixando-se contaminar. 

O Autor Miguel Sanches Neto não vê a crônica como um ponto de partida, e sim de chegada. Para ele, o escritor só alcança determinada perfeição na escrita quando se torna um cronista, entregando a realidade, e descrevendo-a em um papel com tamanha perfeição em seus detalhes e ousadias.



O livro reúne 42 crônicas de proeza realistas e cotidianas que nos prendem às reflexões; pela Editora Leitura, edição de 2006. Mas, o que me chamou mesmo a atenção, foi o valor que ele deu ao escritor capacitado a escrever crônicas, capacitado a se entregar de corpo e alma e sem máscaras ou facetas indescritíveis.



Em sua Apresentação, no início do livro, o autor diz:


"A crônica foi para mim um caminho para o exercício cotidiano da literatura, experiência fundamental a qualquer escritor que não descuide das relações com a realidade. Ao contrário que afirmam certos teóricos, não a vejo como gênero menor, mas como o grande gênero da nossa pátria de tantas impurezas... O escritor deve tirar a roupa diante do leitor. Não pode ter pudor algum nem temer o que vão pensar dele. Mas também deve aprender a colocar véus, a ficcionalizar, para que o sopro literário dê vida ao barro autobiográfico ou à pedra da realidade jornalística. Um trabalho com sentidos contrários - um verbo que se despe e se cobre ao mesmo tempo, criando as ambiguidades necessárias para a abertura semântica da verdadeira literatura.


A crônica também permitiu a ampliação do público. Enquanto a crítica, por mais aberta que fosse, atingia um leitor instrumentalizado, o novo formato me ligava ao leitor comum... Descobri então o poder curativo da palavra, que fecha feridas e espalha conforto, que abre o apetite para o mundo e acaricia o leitor. Esta talvez seja a mais bela experiência literária que eu tenha vivido.

A crônica foi, por tudo isso, uma chegada. Apenas o romance pode se aproximar de sua universalidade, mas mesmo este gênero maior não consegue ser lido com a mesma espontaneidade.

A crônica é um feriado da notícia. É um encontro com o amigo, a fuga para o jardim, a parada num momento de trabalho, quando nos dedicamos a coisas simples e despretensiosas. Em nenhum outro momento me realizo tanto quanto na hora de escrevê-la. Nela, sou tudo (poeta, crítico, ensaista, ficcionista) e ao mesmo tempo não sou nada. Eis o cronista."


 Miguel Sanches Neto


Ed. Leitura, 2006.


Quando li esta apresentação, pensei: - Nossa! Ele tirou as palavras de minha mente. Pois, foi como se estivesse lendo os meus pensamentos. Descrevendo cada fato, cada degustação que o cronista sente ao escrevê-la. Neste momento, senti-me orgulhosa, pois, sou cronista!



2 comentários

  1. Me encantou muito, principalmente o trecho "não pode ter pudor algum nem temer o que vão pensar dele. Mas também deve aprender a colocar véus, a ficcionalizar, para que o sopro literário dê vida ao barro autobiográfico ou à pedra da realidade jornalística."


    Abraço,

    {http://www.duasgotas.com.br/}

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  2. Pois é, um dos livros que mais me encanta... :D

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