A indecifrável Clarice!



Ao assistir esta entrevista de Clarice Lispector dada no ano 1977, ano de sua morte. Senti-me um pouco perdida e triste. Era como se algo a dissesse de seu trágico fim.
Não é de se negar que ela era uma escritora de grandes intuições a ponto de ser chamada de vários nomes terríveis na literatura; entre eles está este adjetivo nada combinativo com sua característica: bruxa.

O fato de Clarice tocar corações no profundo e praticamente adivinhar os sentimentos mais íntimos do ser humano, não dava o direito de qualquer pessoa lhe submeter títulos tão desfavoráveis como este.
Sinto que ela realmente não gostava, e quem gostaria de ser mal interpretada em sua escrita? Quando o que ela queria no fundo era ser compreendida. Queria que seus leitores a lesse e virassem seus amigos.
Mas, por vez, não era todos que tinham a ousadia que ela tanto admirava para chegar perto dela e tirar suas dúvidas.
Outros, doravante, queriam estar em seu lugar, mas como não conseguiam, dizia que seu trabalho era mero fruto de seus devaneios psicológicos e sentimentais.
Ora, quem nunca leu um livro de Lispector e não ficou perturbado com a mensagem que se passava diante dos olhos que se tornavam a cada releitura um enigma a ser decifrado?

Todos os seus leitores já passaram por isso, ora, uma obra cai como luva, ora, outra não passou de certas loucuras.
E como ela mesma disse, não foi ela o motivo dessa desventura, pois nunca mudou. E sim o mundo em sua volta.

Como escritora; melhor dizendo, amante da escrita comparada à Clarice, nem sempre escrevemos coisas que queremos de fato que os outros entendam. Às vezes, nem nós mesmos queremos entender, mas só o fato de pôr para fora um peso que nos atormenta, cria-se a imagem de um autor devaneado e louco. Só pelo fato de querermos ser lido.

Clarice se sentia morta ao termino de cada obra, ela só se sentia viva quando estava dando vida aos personagens em seu papel.
Em sua ultima entrevista não temos dúvidas de que algo a decepcionou muito, fazendo-a ser um pouco, para não usar eufemismo, fascinada pela morte.

E não só isso como também, no fim de sua vida, nega clara e evidência sua carreira como profissional, por causa dos descasos que sofrera em escrever da maneira que ela se deixou levar.
Acredito que até nos tempos de hoje, existe este rótulo de escritor e ser humano, da qual não deveria existir. Pois, só escrevemos porque somos diferentes de fato, porque somos sensitivos e muitas vezes perfeccionista de nossas vidas. Mas a escrita não deixa de ser um subterfúgio tão grande para o escritor assim como ele passa a ser para o leitor.

A arte de escrever e ler está nesta imposição. Eu lhe dou para ler e você me compreende. Compreende os demônios de minha vida, ou compreende simplesmente o que quero que mude em você leitor, ou os meus devaneios de uma mente desmedida, simples assim.

Cada escritor, ao escrever, tem um objetivo idealizado em sua mente; uns querem apenas desabafar, outros ajudar, e muitos somente méritos...
Isso você encontrará na forma que cada escritor transpassa sua alma em suas palavras.
Clarice estava cansada de ser rotulada, cansada de ser julgada e mal compreendida; o fim foi mais triste do que eu poderia imaginar.

Morreu sem ao menos observar que a próxima geração seria diferente com ela, a prova disto era os estudantes universitários. Triste por que morreu jovem, porque poderia estar viva e presenciar todo esse carinho e compreensão desta nova geração que tenta lutar contra o preconceito e imagens de rótulos. Dando um pouco de sua alma aqueles que necessitam dela.





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