Desolada - Release




"Que teu sangue não manche a pureza que trazes o branco da neve ao cair do céu. Congelando-te para manter intacto aquilo que jamais deveria ter mudado. E ao se lançar entre a floresta negra, observe o orvalho da manhã que cai, banhando as árvores que estão secas, sem frutos... E quando a luz do sol não se fizer presente e tudo virar escuridão, corra em direção ao castelo que há morada em seu coração, até que renasça o sol e as geleiras se derretam, trazendo-te de volta tudo o que perdeu, e te transformando em uma inefável maçã."


Agatha de Assis, autora
Introdução
        Não sabemos quando o mal nos torna pessoas das quais nunca imaginávamos que seríamos; não sabemos como ele entra em nossas vidas e nos toma como suas marionetes, fazendo este mundo se tornar mais tenebroso e terrível do que já é. Existem pessoas mais propícias a serem vítimas desse mal. Um mal que nos assola, que nos destrói, que nos arranca o ar. Um mal que jamais seria mal se não nos manipulasse com sua parte sedutora, com sua mentira mascarada. Com seu arquétipo inquestionavelmente fascinante. Basta somente um motivo, uma boa razão para que possamos abrir nossos corações para o lado que pende a ganhar mais nos dias de hoje, o lado mais promíscuo e invulnerável. Talvez você já tenha nascido com esse lado, ou simplesmente inveje algo, ou odeie algo para que uma brecha se abra em sua vida e a mude radicalmente.
         É melhor tomar cuidado, “o mal” costuma aparecer como anjo que brilha e cega teus olhos, como sussurros que parecem melodias em seus ouvidos; no entanto, este mal não deixa de ser um lugar desolado dentro de sua própria mente, como uma hipnose sem controle.

Prólogo
França, Império Russo, 1914 – Início da Primeira Guerra Mundial


         Paola estava sentada com um terço de oração em sua mão, avistando o túmulo de sua avó. Ela ficava quase todos os dias ali, depois que o estrondo da Guerra foi declarado. Ela tinha medo, muito medo dentro de si. Acreditava que, orando o tempo todo, pedindo a sua avó para que intercedesse por todos os vivos, algum milagre aconteceria.
         Sua família era muito pobre, de origem muito humilde. Paola não acreditava que tudo poderia terminar por causa da ganância dos homens, sobretudo suas maldades e falta de amor uns para com os outros. Ela tinha cabelos ruivos levemente cacheados nas pontas, pele branca com sardas bem leves e olhos azuis celestes, o que dava um ar angelical a ela. Não era de se admirar sua aparência, combinava com sua linda e bondosa alma. Também típico de sua família conhecida como os “Galeones”; esse era o sobrenome de Paola, era a única coisa da qual motivava a sua existência em meio à miséria, queria honrar o seu nome, mantê-lo limpo.
        Parada ali, começou a chorar, silenciosamente. Sussurrando: “por favor, não deixe que isso aconteça!” Ela temia perder todos que amava, ela temia a morte e a terrível dor que poderia sentir se sobrevivesse à guerra sozinha.
         O medo a invadiu como um pânico exageradamente forte, sua respiração começou a ficar acelerada de acordo com o ritmo de seus batimentos cardíacos, até o momento em que ela ouviu uma voz vinda detrás dela, junto a um clarão que fazia sua sombra se projetar grandemente na lápide de sua avó.
         – Não tenha medo!
         Paola ficou ainda mais tensa, todos os nervos de seu corpo pareciam enrijecidos; achou que poderia ser um dos soldados malvados que havia atacado alguns de seus vizinhos em sua pequena cidade; a única coisa que ela não conseguia explicar era a luz forte e calorosa que se aproximava por trás dela.
        – Fique longe! – gritou ela, pronta para golpear o infeliz com um pedaço de madeira que havia levado consigo para a sua defesa.
        Quando Paola virou seu corpo para golpear tal inimigo, a mesma luz forte e uma força invisível a jogaram para longe, causando impacto em seu corpo, assim, atingindo a lápide de sua avó, deixando-a meio inconsciente. Ela defendeu seus olhos com as suas mãos, tentando entender o que era aquilo. Ainda com sua visão embaçada, Paola tentava fazer um grande esforço para ajustar as suas vistas àquela luz poderosa. Quando finalmente conseguiu enxergar, viu um brilho e asas de anjos pairando um pouco mais de um palmo sobre a terra, flutuando, de braços estendidos com toda a glória que um ser celeste poderia ter. Sua beleza era indescritível, só alguém que realmente tivesse visto antes, poderia partilhar com sua fabulosa experiência vivida por um milagre na Terra. Paola se maravilhou com a grande beleza que aquele ser carregava. E teve certeza de que estava vendo um anjo.
         – É um milagre? A guerra acabou? Você fará a guerra acabar? – perguntou eufórica, prostrando-se diante de sua glória.
         Um silêncio absoluto tomou conta daquele momento, o anjo de luz branca e pura a olhava, analisando-a, até dizer, com uma voz de trovão:
         – Não! O destino da guerra não sou eu quem decide. Ela ainda persistirá, ainda permanecerá por algum tempo. Você perderá a sua família, mas estará a salvo comigo. Eu estarei lhe protegendo – disse o anjo misterioso.
         Paola, assustada com a soberania do anjo, ousou em dizer:
         – Não, não pode deixar minha família morrer, é tudo o que tenho. Se eu os perder, para quê vou querer sobreviver? – contestou com pouca esperança.
         – Para ser o recomeço. A salvação de uma nova nação. Para todo o bem existe um sacrifício. Você precisa escolher estar ao meu lado, eu a ajudarei a cumprir sua missão.
         – Missão? O que devo fazer? Que destino devo seguir? – Paola ficava cada vez mais angustiada com tudo o que o anjo lhe dissera.
         – Venha até mim, lhe mostrarei – disse o anjo em tom persuasivo.
         Ela se levantou e caminhou lentamente em direção ao anjo. A cada passo que dava, sentia-se em total harmonia com o mundo, a pessoa mais feliz dentro dele.
         O anjo tocou em sua face e olhou dentro dos olhos de Paola. Foi um encontro de duas luzes, duas almas diferentes, duas cores iguais em total harmonia. Sua cabeça já não sangrava mais com a queda que tivera, estava fechada a ferida. Paola sentiu seu coração transbordar, sentiu-se dominada pelo poder daquele anjo. O sentimento de paixão avassalador era incontrolável, indescritível. Sua luz já não era tão forte, e seu toque era sólido e quente. O anjo a abraçou com força. Paola sentiu o calor dele irradiar por todo o seu corpo, uma grande onda de pequenas partículas de energia brotavam sobre o corpo de Paola.
         – Venha, seja minha! – o anjo a convidou para se deitar com ele. Sua voz agora era suave como uma melodia Divina.
         – Mas você é um anjo, não poderia fazer isso. – Disse ela, envergonhada, analisando sua beleza e ternura, embora pudesse enxergar mais luz do que qualquer outra coisa.
         – O caminho do Senhor é por muitas vezes misterioso, e se digo que deves fazer isso, é porque deves fazer – persuadiu o anjo.
         Paola, confusa, derramou uma lágrima da qual o anjo a enxugou. Ela disse:
         – Se é o Senhor que te enviou, por que Ele não me envia um sinal do Céu para que eu possa me deitar contigo? Pois bem sei que Deus disse que nenhum sinal mais fará para conosco. Estamos perdidos e esquecidos – rebateu chorando, acreditando que Deus a abandonara.
         – Não diga isso! Não vê que estou aqui, como podes ser tão cética? – indagou o anjo, acariciando o seu rosto. – O Senhor me enviou com a missão de destruir os homens e formar uma nova nação de híbridos. Paola, não vê o milagre? Você foi escolhida por Deus para ser a nova Eva. A minha Eva. No entanto, você não falhará. Venha e deite-se comigo.
         – Mas como posso abandonar aqueles que amo? Como posso ignorar tudo aquilo que aprendi com a palavra de Deus, a palavra que me sustentou por toda a minha vida, que meu deu forças para continuar seguindo em meio às dores? Como? Deus não condenou os anjos que preferiram as filhas do homem a Ele? Como pode agora mudar de ideia? Como pode Se arrepender? – perguntou, intrigada.
         – Não seja tola! Não sabe que Deus se arrependeu de ter criado a Terra e tudo o que havia nela. A única coisa que O fez continuar com essa raça desgraçada foi Noé, segundo o Todo Poderoso, era um homem fiel, como se vocês meros mortais tivessem a capacidade para a lealdade      – insistiu o anjo.
         – Não acredito que Deus tenha se arrependido de fato. Acho que Seu coração encontrou muitas tristezas, a ponto de desistir como nós quando estamos sobrecarregados.
         – Como pode pensar dessa forma? Deus não é poderoso o suficiente para cuidar de Si mesmo? – o anjo se exaltou e com isso sua luz foi diminuindo.
         Paola, vendo aquilo, respondeu um pouco temerosa:
         – Não, só acho que Ele tem sentimentos como nós, a ponto de nos fazer à semelhança Dele e não à semelhança de vocês. Só acho que vocês anjos não O compreendem como nós humanos O compreendemos. Acredito que até mesmo uma única boa alma seja um motivo para Deus manter a Terra. Não teria sentido exterminá-la.
         – Como pode ser tão cética? Como pode me defrontar? Não tem medo do que posso fazer a você, Paola? – perguntou o anjo com um tom mais ríspido, já sabendo que não podia mais enganá-la com aquela aparência.
         – Então me explique você que é um anjo de Deus. Por que tudo isso?
         Paola sabia no fundo que algo estava errado. Seu instinto de se proteger contra qualquer mentira a fazia falar mais e mais, sendo que qualquer outro ser humano permaneceria calado diante daquela situação. Mas Paola era diferente, ela tinha um dom e por isso aquele anjo a procurara.
         O silencio brotou novamente e o anjo tomou a forma de um homem jovem de aproximadamente 25 anos de idade, atraente, com pele alva e olhos azuis intensos. Os olhos lembravam a sua luz, lembravam o Céu. Sua beleza em forma humana era tão indescritível como em sua forma angelical.
         – Pode ver? Sou humano agora. Como isso poderia ser possível? Não sei. Somente Deus tem a resposta para todas as coisas e eu me prontifiquei em obedecê-lo. Mas o livre arbítrio não foi tomado de você. Se você escolher estar do lado das trevas, terás a sua recompensa por sua desobediência. Não ama a Deus? Agora a pouco não estava orando, pedindo a Ele um milagre? Não queria que sua avó intervisse? Então? Por que questiona os desígnios de Deus agora? – indagou com uma voz voraz sobre a pequena garota. – Venha, eu lhe mostrarei algo para que possa acreditar. – Disse o anjo com suas mãos estendidas em direção à Paola, enquanto a fitava com seu rosto fixado na pobre menina.
         Paola não hesitou, pensou por um momento que talvez isso fosse o querer de Deus. Afinal, os homens não mereciam estar vivos. Eles eram perversos e cruéis. Mas no fundo de seu peito, a verdade prevalecia; algo estava incoerente, como um anjo poderia ficar tanto tempo em forma celestial sem ferir seus olhos? Não é verdade que os humanos não têm capacidade de ver a verdadeira luz de um anjo, pois há muito poder? Como poderia Deus criar uma missão da qual Ele era completamente contra? Ela tocou nas mãos do rapaz e sentiu o calor humano radiar de seu corpo. Era tão real, como ele podia fazer aquilo? Paola pediu aos Céus que intervisse caso aquilo fosse uma cilada, orando através de seus pensamentos a Deus.
         O anjo tocou em seu rosto e a abraçou, olhou fundo em seus olhos e disse:
         – Você fará tudo o que eu lhe mandar, ou você deixará de existir.  – Hipnotizando-a.
         Paola sentiu frio, muito frio após as palavras ditas pelo anjo. Viu seus olhos brilhando, mudando de cor, indo para o negro intenso. Paola se sentiu zonza e não conseguia mais ir contra a sua vontade. A única coisa que fez foi pensar em um milagre, pensar em sua oração feita através de seus pensamentos há alguns segundos atrás.
         Era uma cilada. Aquilo não era um anjo, e sim um demônio.
         Paola estava sob o domínio de uma hipnose.
         O anjo lançou lhe todas as lembranças de seus pecados, mostrando-lhe o quanto era insignificante. Paola teve acesso a seus pecados, momentos de fúrias, alguns furtos por causa da fome; mas nada além disso e isso o deixava constrangido, pois ela era pura e digna de viver. Não poderia ser acusada de pecados da qual já fora absorvida.
         Ela deitou-se ao chão, certa de que estava sendo controlada por ele. Seus olhos se enchiam de lágrimas, e seus pensamentos eram rodeados de culpas, culpas por seus míseros pecados. Paola concentrou a sua fé, e pediu em voz alta:
         – Ajude-me, oh Deus! – Ecoou seu grito.
         Os pássaros assustados começaram a voar em círculos. O céu se abria diante dos dois. De baixo das nuvens desciam pequenas luzes com asas, era de uma imensidão espetacular.  Paola vendo aquilo, pode perceber que aqueles eram os verdadeiros anjos do Céu.
         – Não! O que fizeste maldita? Você não sobreviverá para ver novamente a sua família.  – Gritou com ódio o anjo caído.
         Paola juntou forças e disse com a voz inerme, sentindo-se fraca, evasiva:
         – Posso não sobreviver, mas você não conseguirá vencer a verdade.
         Sentindo sua pele queimar diante da Luz verdadeira dos anjos que o envolvia e o queimava aos poucos, o anjo gritou diante de sua destruição; perdendo as suas asas, penas por penas soltando de seu corpo, suas penas se tornaram negras enquanto ele gritava com ódio e dor, desprendendo-se de um corpo que não o pertencia, desprendendo-se de uma farsa maligna, e assim se tornando um demônio de figura assustadora.
         Paola olhou para o céu sentindo que não sobreviveria a fúria desse demônio. Sentiu uma brisa fresca bater em seu rosto, experimentando a paz que nunca antes havia vivenciado. Paola fechou seus olhos, ainda sem controle sobre seu corpo, e se entregou ao Ser Superior. Em seguida o anjo caído veio em sua direção com toda fúria e a atacou. Estraçalhando-a, enquanto o Céu escondia sua face, envergonhando-se dele, a luz dos anjos o conflagrava, fazendo justiça.


11 comentários

  1. Lindo, maninha, adorei!!!

    Muita sorte e muito sucesso!!!

    Te amo muitoooooooo!!!

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  2. Demais moça! Vejo que utilizou muito bem algumas passagens da Bíblia. E amistura com o clima da primeira guerra dá um tom noir a trama. E a destruição de Paola no fim do prólogo? Nos deixa com água na boca, qurenedo mais. Fez bem o gancho para fazer com queiramos saber o que vem depois. Espetacular!!!

    Bjos!!!

    Léo Born

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  3. OMG!!! Que bom que gostaram... Eu fico muito feliz de coração. É muito bom observarmos que estamos no início e já somos aprovados por grandes escritores, como você... Ganhei munha noite... O/

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  4. Agatha do céu ---> Simplesmente maravilhoso.! Mas também, vindo de você eu não poderia esperar outra coisa.
    Como disse o Léo à cima, ficou um gostinho de "quero bem mais". >>> Desejo do fundo do coração todo o sucesso do mundo pra vc, e mal posso esperar para ter o meu livrito em mãos e com dedique. #PARABÉNS

    Bjksssss da **Si

    http://simplesmentesimoneblog.blogspot.com.br/
    http://eoceoi.blogspot.com.br/

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  5. Excelente release, Agatha.
    Mal posso esperar para trocarmos novos livros outra vez. Desolada também precisa estar na estante, junto aos nacionais autografados.

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  6. Muito bom Agatha!
    So tenho a te parabenizar pela tua escrita. As vezes é algo que se deseja ouvir e, às vezes, é algo que você deve ouvir. É sempre algo com utilidade e, mesmo nas entrelinhas, tem sempre uma mensagem de que podemos nos tornar melhores podo em prática o que lemos nas tuas palavras.
    sempre bom ler seus escritos.
    Este livro não fica de fora,
    Parabéns!

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  7. o prologo está maravilhosamente bem escrito
    estou ansioso para ler o livro
    Agatha de Assis
    meus parabêns
    Desolada será meu presente de Aniversário
    agosto faço niver
    há que presente

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  8. Agatha,não queria ser repetitivo,mas os seus escritos, me leva mais uma vez o aprazer de bebericar e degustar destas emoções condensadas em contos,que faz com que viajemos em uma nau sem rumo,para aportar neste portos de realidades literárias muito bem postadas.Um abraço menina doce.

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  9. Agatha, o trecho que nos foi ofertado é primoroso. Vejo que estudou bem a Bíblia para escrever. A linguagem também muito me agradou, posto que é clara, mas não é pobre, possui um ótimo equilíbrio. Sem falar que é um prólogo que estando-se com o livro nas mãos é impossível não seguir direto para as próximas páginas. Me fisgou!!!

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  10. muito bom Agatha de Assis é formidavelmente perfeito
    uma obra prima que nos leva a conhecer o nosso eu próprio
    numa viagem a caminhos sobre os medos que nos afrige a cada dia
    parabéns eu lhe admiro por seu trabalho como escritora e cronista sucesso sempre

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  11. O doce e apavorante saber do profano, misturado com o sagrado, mostra o quanto a nossa mente não sabe realmente o que é o melhor para nós, apesar da garota acreditar em um deus, ela cedeu aos desejos por um instante e foi enganada, vemos isso o tempo todo. Agatha nos mostra isso de uma forma onde coloca nossos desejos acima da razão. O que você faria? Se renderia ao desejo ou manteria a fé naquilo que foi seu ponto forte por anos!

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